Dando prosseguimento a este breve comentário sobre Gustav Mahler, compositor austríaco nascido na Boêmia, cujo centenário de morte é celebrado este ano, adentramos em seu período intermediário, quando o compositor buscou inspiração em outras fontes que não o ciclo de poemas Das Knaben Wunderhorn.
Com a Quinta Sinfonia Mahler atinge um dos pontos culminantes de sua carreira. É a mais tradicional quanto ao conteúdo, embora abra mão de cinco movimentos, divididos em 3 partes, que Mario Henrique Simonsen, em seus saudosos artigos para a revista VEJA, costumava descrever como uma jornada partindo da mais profunda depressão para a mais exaltada euforia, referindo-se aos contrastes marcantes que o ouvinte experimenta do primeiro movimento ao último.
A Parte I engloba os dois movimentos iniciais. O primeiro movimento, Marcha Fúnebre, a ser executado como uma procissão, estabelece o padrão da sinfonia. Um tema melancólico e sombrio alterna-se com outro mais dinâmico e igualmente sombrio. Funciona como uma longa introdução lenta à sinfonia.
O segundo inicia-se no mesmo tom do final do anterior trazendo a indicação “com a maior veemência”. É de grande efeito dramático, enérgico e ainda mais ameaçador que a frase predecessora. O orquestrador Mahler aqui põe algumas dificuldades de execução que exigem tudo o que os músicos podem fazer com seus instrumentos. Suas fanfarras e ostinatos não resolvidos abrem espaço para o desenvolvimento subseqüente.
Depois de dois movimentos desesperançosos, na Parte II algumas luzes começam a brilhar. O Scherzo é a melhor frase sinfônica que Mahler escreveu. Não deixa de ser sombrio. A obstinação esboçada nas duas primeiras frases dá lugar a uma música ainda mais obsessiva, que usa um tema que lembra uma antiga valsa. Um solo de trompa tenta romper a escuridão emocional, mas sempre esbarra nos ritmos implacáveis da orquestra. Efeitos orquestrais arrebatadores destacam-se aqui e ali e a coda traz um espetacular colorido orquestral, embora não resolva a tensão presente desde os primeiros compassos.
A Parte III é composta pelos dois últimos movimentos. O Adagietto surge como um idílio, onde apenas as cordas e uma harpa oferecem algo como um consolo, até mesmo esperança. Esta frase é uma favorita do público e muitas vezes é executada sozinha. Em 1975 o diretor italiano Lucchino Visconti a utilizou como tema musical do filme Morte em Veneza, cuja trama inspirava-se parcialmente na vida de Mahler.
Do lento e elegíaco Adagietto a sinfonia salta para o Rondó-Finale,um final radiante, alegre, até mesmo vibrante. Os temas são eletrizantes, rigorosamente desenvolvidos, como manda a tradição germânica. O tom eufórico deste movimento encerra com maestria uma das maiores obras-primas musicais do século XX, hoje a sinfonia mais executada e gravada de Mahler, fato plenamente justificado pela qualidade da composição. Foi a última sinfonia de Mahler em que o otimismo e a esperança são espontâneos e sinceros. Nas obras seguintes não haveria lugar para tais sentimentos.
Das gravações disponíveis citamos a de Barbirolli, com a Filarmônica de Londres(EMI), Bruno Walter, com a Filarmônica de Nova York (Sony), Georg Solti, com a Sinfônica de Chicago e Sinfônica de Londres (Decca), Claudio Abbado, com a Sinfônica de Chicago e outra com a Filarmônica de Berlim(ambas pela DG) ou Simon Rattle, também com a Filarmônica de Berlim(EMI). Todas elas são excepcionais sob qualquer aspecto.
Destacamos, dentre todas elas, duas de valor inestimável: a de Herbert Von Karajan (DG), que extrai da Filarmônica de Berlim uma execução radiante, de incomparável virtuosismo orquestral e inesgotável imaginação por parte do maestro; finalmente, a de Leonard Bernstein, regendo a Filarmônica de Viena, naquela que talvez seja sua maior realização no repertório mahleriano. Seu virtuosismo instrumental não é menor que o de Karajan e conta com uma orquestra bastante familiarizada com esta obra, gravada com uma competência acima de qualquer elogio pelos engenheiros da Deutsche Grammophon. Os contrastes emocionais são explorados como em nenhum outro lugar.
JHC
continua...
Nenhum comentário:
Postar um comentário