sexta-feira, 3 de junho de 2011

GUSTAV MAHLER (1860-1911) - Parte II

No post anterior, comecei a explorar um pouco a vida e a obra do compositor austríaco Gustav Mahler, cujo centenário de morte ocorreu no último dia 18 de maio. Estou usando o que escrevi como esboço para um ensaio mais amplo, onde registro minhas impressões e as da crítica sobre as sinfonias e, eventualmente, os ciclos de canções.
Para alguns pode parecer estranho que este blog não tenha um foco específico, tipo só teologia ou assuntos afins, mas é que gosto e cultivo muitas disciplinas, como os interessados podem ver em meu perfil.
Sobre Mahler:
O trabalho na Segunda Sinfonia começou logo após a conclusão da primeira versão da Sinfonia Nº 1. Os esforços compositivos estenderam-se de 1888 a 1894. É bastante perceptível o progresso na capacidade criadora do grande compositor.
Mais uma vez há uma divisão em cinco movimentos, cada um bem diverso dos demais. A primeira frase é uma marcha fúnebre, que soa como uma continuação direta do finale da Primeira Sinfonia. A segunda é um andante à maneira de Schubert, embora sem a riqueza melódica deste. O terceiro é um scherzo estilizado, de grande virtuosismo instrumental. O quarto é uma Canção Wunderhorn, Urlicht (Luz Original, em alemão), de clara natureza religiosa. O quinto é uma imensa frase de mais de 30 minutos de duração, para soprano, mezzo-soprano e um grande coro. O texto é baseado em uma ode do poeta romântico Klopstock, sobre a idéia de ressurreição, embora mais filosófica que religiosa.
Vale ressaltar que, ao contrário do que podemos imaginar inicialmente, o uso de vozes solistas e coros em suas sinfonias deve-se mais ao modelo herdado das missas de Bruckner do que à Nona Sinfonia de Beethoven.
A complexidade desta composição, e das outras sinfonias que vieram em seguida, estabeleceu a realidade onde se fazem necessárias várias audições de uma obra para que o  público se habitue à música e, com o tempo e a audição repetida, possa fazer uma melhor apreciação. Nos tempos anteriores ao registro fonográfico os concertos de obras de Mahler não eram tão freqüentes como hoje, daí a pouca, ou nenhuma, popularidade de suas sinfonias antes do surgimento das técnicas de gravação mais desenvolvidas, como o disco long-play.
 Essa situação piorou com ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha e, em seguida, na Áustria, banindo as composições do judeu Mahler do repertório, isso em um tempo que as outras nações praticamente não o conheciam, o que poderia levar ao esquecimento definitivo.
A partir do final dos anos 30 surgiram as primeiras gravações, ainda em 48 RPM, como, por exemplo, a execução da Nona Sinfonia por Bruno Walter à frente da Filarmônica de Viena, em 1938, poucas semanas antes da anexação da Áustria pela Alemanha nazista.  No início dos anos 50 já havia um significativo número de gravações, o que impulsionou o interesse quase febril que pode ser notado nos anos 60, com pioneiros ciclos completos realizados por Leonard Bernstein e Rafael Kubelik, ainda hoje contados entre as maiores gravações de obras de Gustav Mahler.
 Merecem menção também as realizações discográficas de Sir John Barbirolli e Otto Klemperer, maestros entusiastas de Mahler, que muito contribuíram para a difusão de suas obras. Klemperer foi um defensor de primeira hora. Barbirolli, a exemplo de Karajan, descobriu Mahler em seus últimos vinte anos de vida, é considerado o introdutor destas sinfonias no repertório da Filarmônica de Berlim, que até os anos 60 era indiferente, até mesmo hostil, à música de Mahler, situação que só mudou sob a direção de Claudio Abbado, cujo sucessor, Simon Rattle, consolidou neste início de século XXI em concertos e gravações aclamados da Quinta, Nona e Décimas Sinfonias.
Alguns consideram a Sinfonia Nº 2 como a obra-prima de Mahler, uma síntese bem-acabada de seu método composicional, mesclando pura música instrumental com partes vocais à maneira de suas canções. Como já destacado anteriormente, as exigências técnicas são grandes e músicos menos preparados correm o risco de naufragarem numa execução desta sinfonia.
Das gravações disponíveis a mais em voga é a de Otto Klemperer, regendo a Orquestra da Radiodifusão Bávara(EMI, 1967). Klemperer, que acreditava ser esta a obra de Mahler que permaneceria, isto numa época que o mundo musical praticamente ignorava o compositor austríaco, também legou outro registro antológico com a Philharmonia Orchestra, de Londres (EMI,1961). São realizações estupendas, mas, que, em nossa opinião, são ultrapassadas pela versão de Zubin Mehta à frente da Orquestra Filarmônica de Viena (Decca, 1975), de extraordinária qualidade, tanto da enérgica e precisa regência quanto pela excelência do canto, com as solistas Christa Ludwig e Illeana Cotrubas, um inspirado coro da Ópera de Viena e uma vibrante execução orquestral, qualidades que reputamos como insuperáveis.
Mas, em se tratando de Mahler, temos sempre de destacar que nenhum maestro, cantor ou orquestra consegue exaurir a composição. Assim há um bom número de gravações que primam pela competência e bom gosto, tais como as de Bernstein(DG, Sony), Simon Rattle(EMI), Bernard Haitink(Philips), Bruno Walter(Sony), Claudio Abbado(DG), Pierre Boulez(DG) e Leonard Slatkin(Telarc)
J.H.C.
continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário