segunda-feira, 6 de junho de 2011

GUSTAV MAHLER (1860-1911) - Parte III


Após a segunda sinfonia, a carreira de Mahler, tanto como regente de orquestra como de compositor, dá um salto qualitativo, com obras que não só resumem os estilos anteriores como também antecipam, em décadas, o desenvolvimento da música erudita no século XX.
Neste ponto de sua vida, no início da última década do século XIX, Mahler era famoso principalmente como regente e em meados da década foi contratado como diretor musical da então Ópera Imperial de Viena, o cargo musical de maior prestígio da época, e, por conseqüência, da Orquestra Filarmônica de Viena, já no topo do ranking das maiores e melhores orquestras do mundo (naquele tempo só as orquestras de Berlim e Amsterdã eram concorrentes para os vienenses, situação que permanece praticamente inalterada neste início de século XXI).
Sendo um cargo público, subordinado à casa imperial austríaca, Mahler submeteu-se ao batismo católico-romano para estar em condições legais de assumir, uma vez que o catolicismo romano era a religião oficial do Império Austro-Húngaro, portanto os funcionários públicos eram obrigados a confessarem a religião estatal, prática esta ainda presente em diversos países, principalmente muçulmanos.
Durante sua gestão, a reputação destas duas formações atingiu seu ponto mais elevado, com representações consideradas até hoje como insuperáveis das óperas maduras de Mozart, Wagner e alguns outros mestres do palco.
No campo da execução da música sinfônica, chegou-se próximo da perfeição em Beethoven, Mozart, Haydn, Schubert, Brahms e Schumann.
Mahler produziu reorquestrações das sinfonias de Beethoven e Schumann, adaptando a sonoridade para o tamanho que as formações orquestrais tinham alcançado ao final do período romântico. Esses arranjos dividiram as opiniões dos eruditos, alguns as recebendo bem, argumentando que o próprio Beethoven aprovaria, uma vez que aumentava as forças instrumentais empregadas à medida que compunha, enquanto outros as têm como adulterações. Só o tempo mostrará quem tem razão.
A Ópera Imperial consumia praticamente todo o tempo de Mahler, que aproveitava as férias de verão para colocar na pauta musical suas idéias.
A Terceira Sinfonia surgiu neste contexto. É uma extensa obra em seis movimentos, que durante muito tempo foi a mais longa sinfonia a fazer parte do repertório. Originalmente eram sete os movimentos, mas o último foi recolocado como o final da sinfonia seguinte.
O primeiro movimento estende-se por meia hora ou mais. Nem de longe tem a organização estrutural das duas sinfonias anteriores, mas isso não importa muito. O brilho orquestral é extasiante e o movimento desenvolve-se de forma satisfatória, de forma que a duração é plenamente justificada pela riqueza de idéias musicais.
O segundo e o terceiro movimentos são scherzos estilizados, ora líricos, ora agitados. Novamente a rica instrumentação solta faíscas.
O quarto é um coro de meninos, que cantam um Wunderhorn Lieder.
O quinto é para soprano e orquestra, uma musicalização de um texto de Nietsche. O texto é inexpressivo, mas a música tem lá suas qualidades.
O finale é como um hino instrumental, de grande inspiração emocional e temática, uma oração sem palavras.
A estréia em Krefeld, Alemanha, foi em 1902, durante a festa anual da Sociedade Geral Alemã de Música, e foi um triunfo para Mahler, o primeiro ponto culminante de sua carreira.
Já citamos alguns dos grandes regentes mahlerianos do século XX. Destes destacam-se nesta sinfonia Sir John Barbirolli e Jascha Horenstein. Barbirolli deixou um registro antológico com a Sinfônica da BBC. Horenstein (1970, hoje fora de catálogo) atingiu aquele que talvez seja o marco definitivo da interpretação desta sinfonia, com uma execução imaculada da Orquestra Sinfônica de Londres e de dame Janet Baker como a soprano solista. Estas duas gravações formam o padrão pelo qual as demais são avaliadas.
As demais incluem grandes gravações por Bernstein, principalmente a primeira, com a Filarmônica de Nova York (Sony), cujas alturas não foram igualadas quando da regravação nos anos 80(DG). Claudio Abbado também tem dois excelentes registros, feitos em Viena (com a filarmônica local) e Londres (com a Filarmônica de Berlim, em 2002, quando da participação dos berlinenses nos Proms Concerts). Recomendamos também o álbum de Riccardo Chailly, com a Concertgebouw, verdadeiro desfilar de virtuosismo instrumental e vocal, sem melodrama ou implicações extra-musicais, que muitas vezes atrapalham as outras gravações.
A sinfonia seguinte, a Quarta, em sol maior, foi elaborada a partir do movimento descartado da terceira, que seria o último. É uma sinfonia composta de trás pra frente, algo incomum. Soa diferente das obras sinfônicas anteriores pela sutileza na invenção melódica e na instrumentação.
Os dois primeiros movimentos têm andamento moderado, onde a única percussão utilizada é a de sinos de trenó, fazendo a composição lembrar certas canções infantis.
O terceiro movimento, Ruhevoll, lento em alemão, é como uma canção de ninar estilizada, onde o consolo é apenas desejado, sem jamais ser alcançado. É similar ao finale da terceira sinfonia, embora menos radiante, como um presságio de dores futuras.
O quarto e último foi o primeiro a ser composto, originalmente como o final da terceira. É uma canção Wunderhorn, sobre o que seria a vida no céu, segundo a concepção católica popular. O compositor pede que seja cantada com expressão de alegria infantil, ressaltada pelo sutil acompanhamento orquestral.
A impressão que deixa é como a saudade de experiências não vividas, a dor por oportunidades não aproveitadas, ou seja, sentimentos que estão longe de serem infantis. É uma das obras mais características de Mahler, a primeira a atingir certa popularidade, ainda nos anos 20, e certamente sua obra mais “leve”.
A variedade de gravações desta sinfonia é imensa, a mais gravada junto com a primeira e quinta sinfonias. Szell, Horenstein, Barbirolli, Benjamin Britten, Walter e Mengelberg são os favoritos da crítica, aos quais podem ser adicionadas as gravações de Bernstein (Sony), Maazel(Sony) e Klaus Tennstedt(EMI), todas elas de virtudes musicais abundantes.
Saindo um pouco das opiniões dos críticos, gostaríamos de incluir, também, a gravação de Herbert Von Karajan (DG), regendo a Filarmônica de Berlim, com a mezzo-soprano Edith Mathis. É insuperável do ponto de vista instrumental, com um soberbo controle do andamento musical, principalmente no movimento lento, aliado à transparência da execução. Karajan nos entrega um Mahler verdadeiramente sinfônico, sem implicações filosóficas ou mesmo teológicas que se fazem presentes em muitas outras gravações.
Até aqui as obras mahlerianas costumam ser delimitadas pelo que os músicos chamam de "período wunderhorn", lembrando arte popular das comunidades germânicas do Império Austro-Húngaro, em referência à coleção de poemas que serve de base para vários dos movimentos das quatro primeiras sinfonias, que dará lugar a elementos mais pessimistas a partir da sinfonia seguinte.
JHC
continua...

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